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domingo, 13 de setembro de 2009

Regresso

"Requiem" de Mozart

I

Ouço-te, ó música, subir aguda
à convergente solidão gelada.
Ouço-te, ó música, chegar desnuda
ao vácuo centro, aonde, sustentada
e da esférica treva rodeada,
tu resplandeces e cintilas muda
como o silente gesto, a mão espalmada
por sobre a solidão que amante exsuda
e lacrimosa escorre pelo espaço
além de que só luz grita o pavor.
Ouço-te lá pousada, equidistante
desse clarão cuja doçura é de aço
como do frágil mas potente amor
que em teu ouvir-te queda esvoaçante.

Jorge de Sena partiu da vida a 4 de Junho de 1978, em Santa Bárbara, Califórnia. Os seus restos mortais foram recebidos, a 11 de Setembro de 2009, na cidade que o viu nascer, ficando depositados no Cemitério dos Prazeres, em Lisboa.



quinta-feira, 17 de maio de 2007

Como a voz de muito amor

Maria Dulce Lupi Cohen Osório de Castro (1905-1977) escolheu para si o pseudónimo de Maria Valupi. A Bilioteca Finita Melancolia da responsabilidade da Quasi Edições dá-nos a conhecer uma Antologia Poética, agora celebrada.

No sítio da editora pode ler-se, a propósito desta autora:

A poesia de Maria Valupi desenha-se num tenso corpo a corpo com a vida, perdendo-se no labirinto de uma obsessiva tentativa de contrariar a evidência da realidade imediata dos seres, o tédio, a dor, procurando, na indagação da palavra, a infinitude dos instantes.


Já nem mesmo sei chorar

Com aquelas lágrimas
Que dos nossos olhos saem
Tão por de leve salgadas!
Só no íntimo de mim
Há uma queixa tão seguida, tão velada
Como a voz de muito amor. (Desprevenidas Paisagens, 1959)