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quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Pelo trilho do eléctrico à noite...


Um vulto prossegue de costas para a noite, alheio a nós, alheio ao eléctrico vazio
iluminado.
Envolve a dedicatória a Miguel Donas, um viajante que tocou o coração do homem
da escrita.
A vida escapou-se-lhe, logo a seguir à saúde deixando para trás tudo o mais,
atilhos de saudade.

O Viajante Sem Sono
José Tolentino Mendonça
Assírio & Alvim

domingo, 12 de abril de 2009

Conhecer Jesus

José Tolentino Mendonça, capelão, biblista, poeta, ensaísta, tradutor e professor recebeu o Prémio Cidade de Lisboa de Poesia (1998) e o Prémio PEN Clube de Ensaio (2004). Lecciona Estudos Bíblicos na Faculdade de Teologia da Universidade Católica, tendo concluído licenciatura canónica em Ciências Bíblicas no Pontifício Instituto Bíblico de Roma. Tem as suas raízes na Ilha da Madeira e seguiu o sacerdócio por vocação, ainda jovem.

A Construção de Jesus (2004) constitui o seu texto de dissertação de doutoramento apresentado na Faculdade de Teologia da Universidade Católica.

Sobre esta obra de referência, para melhor compreensão da figura de Jesus, podemos ler no sítio editorial:

O objectivo da presente dissertação é abordar o episódio do terceiro Evangelho (Lc 7,36-50) através de um exercício de análise narrativa, averiguando o modo como o narrador lucano faz emergir o personagem Jesus. A isso chamamos 'construção'. Não se pretende discutir a prioridade que o Jesus histórico tem sobre o raconto que o toma por protagonista. Se, como recorda Genette a propósito da ficção, a situação narrativa supõe uma instância que precede o actual estado de escrita, quanto mais não se dirá de um Evangelho (Lc 1,1) que intende relatar 'factos que se cumpriram' […] A inquestionável anterioridade de Jesus é fundadora do próprio raconto. A nossa opção é a de sondar a forma como Jesus é revelado no texto evangélico pelo recurso a essa poderosa 'arte refinada', que Lucas domina de forma até 'instintiva', a arte de narrar. Veremos que a arte literária não só nada dilui do impacto teológico da sua figura, como nos faz perceber que a teologia do raconto não se pode dissociar do modo como ele é construído: as categorias do raconto e seus procedimentos estão implicados no conteúdo veiculado. E se, como escreve Aletti, 'talvez a obra lucana seja o primeiro ensaio de cristologia verdadeiramente narrativa', teremos a oportunidade, por aí, de aprofundar caminhos de um renovado encontro com Jesus.
José Tolentino Mendonça

sábado, 4 de abril de 2009

Perto de Cinco Quinas de um Castelo

Recebeu diversas distinções pela sua escrita e a vida trouxe-o a este mundo numa terra incrustada para as bandas da raia de Espanha, onde os barrocos decoram a paisagem, assim como o pinheirame. Num lugar de destaque, ergue-se o castelo, encimado por cinco quinas, que o tornam único em Portugal. Manuel António Pina nasceu em 1943 na agora cidade do Sabugal, onde viveu até aos seis anos, tecendo recordações que, no seu dizer, vêm povoar os seus poemas.
Da terra diz:

A recordação mais antiga que tenho de mim mesmo (falei dela há tempos numa entrevista a uma revista da Galiza) é uma criança de dois ou três anos, de chapéu de palha na cabeça, ao pé de uma fonte, acho que uma fonte de mergulho, circular, num largo talvez em frente de minha casa. Outra criança tira-me o chapéu da cabeça e atira-o à água. Eu – acho que sou eu essa criança – exijo-lhe que o vá buscar e mo devolva. O outro miúdo não o faz, e afasta-se rindo. Então, cheio de orgulho ferido, eu regresso a casa.
Hoje, essa mesma terra presta-lhe homenagem numa tarde que se adivinha acolhedora, como a mãe que abraça o filho crescido, que acaba de regressar.

A avó


Tinha ao colo o gato velho

cansadamente passando
a sua branca mão pelo

pêlo dele preto e brando


Sentada ao pé da janela
olhando a rua ou sonhando-a

todo o passado passando

a passos lentos por ela


Dormiam ambos enquanto

a tarde se ia acabando

o gato dormindo por fora

a avó dormindo por dentro


In Os Livros (2003)


quarta-feira, 25 de março de 2009

O Desaparecimento do Nariz

O Nariz, é um conto do absurdo, que o escritor ucraniano Nikolai Gógol publicou em 1836, na revista Sovreménnik, dirigida por Aleksandr Púchkin.

"À data de 25 de Março deu-se em São Petersburgo um acontecimento de inaudita estranheza."
Por um lado, o barbeiro Ivan Iákovlevitch, esperando degustar um delicioso pão quente, fica estarrecido ao encontrar, no meio do miolo, um nariz. Por outro lado, "um lugar perfeitamente raso" é o que Kovaliov descobre acima da boca, ao contemplar o seu rosto no espelho - nada poderia ser mais constrangedor e, perplexo, tentando ocultar tamanha bizarria, cobre o rosto e vai ao encontro do chefe da polícia. Não o encontrando, recorre à secção de anúncios do jornal.

Partindo do princípio de que terá sido ele a cortar acidentalmente o nariz ao seu cliente, Ivan Iákovlevitch tenta desfazer-se de tão estranho objecto, sem grande sucesso e passando por divertidas peripécias.

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Olhando as Aves que lemos


“Olhai as aves do céu: não semeiam nem ceifam nem recolhem em celeiros; e o vosso Pai celeste alimenta-as” (Mt 6,26)

As aves povoam as histórias de encantar, naquelas manhãs cheias de sol, com ribeiros alegres, adornados por flores e ramagens vicejantes. Esvoaçam pela literatura, enriquecendo-a com a sua simbologia ambivalente, quase sempre ligada a um conceito natural de Liberdade, mas também de Paz (pomba), Terror (corvo), Imortalidade (fénix), Amor ou a sua perda (rouxinol), Primavera (andorinha) ou Sabedoria (coruja), por exemplo. Despojadas dessa roupagem que lhes atribuímos, são elementos vivos da paisagem, ternos, frágeis, que se elevam, que nos encantam com os seus cantos ou chamamentos e nos fazem querer voar mais e mais...

Valerá a pena sermos um pouco ornitólogos por instantes para observarmos estas criaturas dotadas de beleza, com toda a serenidade, para além das páginas dos livros.

Se descermos para lá do Tejo, podemos sempre fazer-nos acompanhar da obra de Helder Costa: Onde Observar Aves No Sul de Portugal.

Boas leituras, ao som da Natureza!


segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Os Místicos


O número deste mês da publicação Le Magazine Littéraire dá especial destaque aos Místicos, consagrando-lhes um dossier específico. Mensageiros do Céu na Terra, demiurgos que escrevem num estado de êxtase, no dizer de Jean-François Colosimo, estes homens e mulheres, de hábito religioso deixaram-nos um legado escrito, cheio de intensidade, resultando de uma ligação directa entre o indivíduo e a divindade, conforme acrescenta Frédéric Lenoir.

A revista dá especial destaque a São Francisco de Assis enquanto pilar do Cristianismo actual, preconizando a necessidade de o homem se aproximar da figura de Cristo, abandonando uma visão essencialmente contemplativa (Henri Tincq).

Seguindo uma perspectiva psicanalítica, Julia Kristeva dedica um artigo a Santa Teresa de Jesus, também conhecida como Santa Teresa de Ávila, cuja obra Moradas foi publicada pela Assírio & Alvim.
Esta editora publicou ainda as Poesias Completas de São João da Cruz, director espiritual, outro místico originário de Ávila (Fontiveros).


quinta-feira, 27 de março de 2008

Em directo e de viva voz


Ao assinalar-se o Dia Mundial do Teatro, aqui fica uma sugestão: se não puder assistir a nenhuma peça, porque não revisitar os clássicos da nossa dramaturgia?

Deleite-se com o génio de Gil Vicente, tantas vezes designado como o pai do teatro português, escolha uma peça que lhe tenha agradado ou descubra alguma outra que nunca tenha lido/visto.

Recentemente, a Assírio & Alvim publicou um volume que reúne uma tragicomédia e uma comédia, intituladas, respectivamente, de
Frágua de Amor e Floresta de Enganos.

Conforme pode ler-se no sítio editorial:

As duas peças têm um elemento comum que as relaciona – neste caso, uma personagem: Cupido. Cupido anda fugido da mãe, a Deusa Vénus, porque se enamorou da Terra e a ela desceu, para mudar os homens, mas acaba por se ver sujeito aos desígnios da Deusa Ventura. Em redor deste ‘menino-Deus’, gravitam muitas outras personagens: desde deuses a princesas e reis, há ainda lugar para um filósofo que foi obrigado a viver amarrado a um parvo.
Escritas em português e castelhano, Frágua de Amor e Floresta de Enganos foram traduzidas por José Bento e representadas no Teatro da Cornucópia, no espectáculo Amor/ Enganos, no ano de 2000. (http://www.assirio.com)

Boa leitura!

domingo, 3 de fevereiro de 2008

Cozinha no masculino

"Este livro é para os homens que gostam de cozinhar e bem comer, sabendo que a diferença é grande entre alimentação de sobrevivência e cozinha para regalo do paladar. É também para aqueles que sabem que a cozinha lhes pertence, no dia em que entendem seduzir com aromas e gostos e percebem que o homem que gosta de cozinhar é um ser social por excelência. Destina-se este livro aos que julgam a cozinha como uma manifestação superior do espírito." Alfredo Saramago

Alfredo Saramago, natural de Arronches, fez parte dos seus estudos em França e em Inglaterra. Gastrónomo, tem já publicadas várias obras de gastronomia e vinhos.


quarta-feira, 23 de janeiro de 2008

Observador silencioso



"Lá vamos, de feira em feira, de carnaval em carnaval, de estrela em estrela..."

O Pobre Tolo de Teixeira de Pascoaes, uma obra de referência de um vulto da nossa Literatura.

A solidão e a beleza, uma "fantasia ao crepúsculo" no dizer de José Tolentino de Mendonça.