segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Insanidade e segredos


Regressemos à literatura victoriana, onde encontrámos já Emily Brontë. A propósito desta autora, detenhamo-nos na escrita gótica no feminino, popularizada pelas suas irmãs, por Ann Radcliffe e Mary Shelley, por exemplo, ou na poesia de Emily Dickinson. Une-as o gosto pela produção literária numa época em que a primazia é dada ao homem - Mary Anne Evans tornou-se famosa escrevendo sob o pseudónimo masculino de George Eliot. Confinadas a um espaço físico e social que as limita, libertam-se através da escrita.

Sandra M. Gilbert e Susan Gubar destacam a figura da louca ocultada, trancada num sotão, conforme acontece com Bertha, personagem de Jane Eyre. Na sua obra The Madwoman in the Attic: The Woman Writer and the Nineteenth-Century Literary Imagination propõem-nos uma abordagem da figura feminina no universo ficcional do século XIX, sem perder de vista as próprias escritoras. Nestas obras, está patente a dicotomia entre a mulher anjo e a mulher monstro, que encontram em Doctor Jekyll e Mr Hyde (de Robert Louis Stevenson) um correlativo, no masculino.

A insanidade e a melancolia favorecem o isolamento voluntário ou imposto. A perfidez da mulher fatal1 , sedutora e traçoeira (cantada por Keats em "La Belle Dame Sans Mercie" - poema aqui ilustrado por uma reprodução da autoria de Sir Frank Dicksee) raramente se vê recompensada; a inocência fortalecida é premiada a vários níveis.

Sem conhecimento do que determina a ocorrência de manifestações de histeria, na obscuridade dos espaços e do tempo, tornamo-nos presas do terror e insegurança que envolvem as personagens. Freud fornece-nos uma pista através do conceito de "uncanniness", traduzido, na nossa língua, através da expressão "sentimento de algo ameaçadoramente estranho" - assusta-nos o que desconhecemos, o que é estranho.

No seu texto, publicado entre nós, pela Europa-América2, Freud fala-nos ainda do "duplo", do "déjà vu", que mais alimentam a sensação de desconforto.

1 Sugestão de leitura: http://tinyurl.com/ccrfxa
2 Textos Essenciais Sobre Literatura, Arte e Psicanalise.

2 comentários:

Adriana Zardini disse...

Obrigada pela participação portuguesa!! Preazada autor(a) do blog Livros e Outras coisas, sua presença é bem vinda!!

Sabia que meu outro blog: www.livroseadaptacoes.blogspot.com estava com o layout igual ao seu?
Troquei no final de semana!
Você também gosta de Austen? Como é ai em Portugal? Os dvds chegam até vocês? Pergunto isso porque aqui no Brasil só podemos comprar ou alugar os filmes lançados por hollywood. As séries de tv sendo vendo pelo Orkut ou de outra forma...

Livros e Outras Coisas disse...

Bem-vinda, Adriana! :)
Também visitei o outro blogue e outro ainda vocacionada para a aprendizagem da língua inglesa.
Foram visitas agradáveis, por espaços que versam temas que me são caros.
Falo também de Jane Austen, que conhece agora grande popularidade por cá. Mas, a julgar pelo filme The Jane Austen Book Club, essa paixão pela autora tem vindo a crescer. Na verdade, há muitas referências, por exemplo, a Orgulho e Preconceito noutros filmes (You've Got Mail, Bridget Jones's Diary), o que mais populariza a sua obra.
A literatura desta época é tão rica... A minha autora preferida é Ann Radcliffe, escritora gótica, que Jane Austen parodia em Northanger A, de forma divertida.
Quanto às adaptações cinematográficas, vamos tendo acesso a filmes e também a séries - não há muita razão de queixa, felizmente.

Obrigada pelo comentário e pela visita, Adriana! :)

Boas leituras!